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Mas Bah Tchê! Isso não é coisa de gaúcho!
Postado em 64 de Discórdia de 3175 YOLD , às 7:58:67 SilêncioA notícia é antiga, no entanto pouco se comenta fora do Rio Grande do Sul. Desde 2006, os grupos da chamada Tchê Music não podem mais usar a pilcha (bota, bombacha, guaiaca) por serem considerados traidores da tradição gaúcha. Seu crime? Modernizar a música gaúcha com a inclusão de novos instrumentos e novas referências sonoras. Que os CTGs cultivem a tradição e evitem que essas bandas toquem em suas dependências é compreensível, mas estender a proibição ao vestuário beira o absurdo.
Não que esses grupos façam ou fizessem questão da pilcha. Uma das críticas que os tradicionalistas mais faziam a eles era inclusive seu “desleixo” quanto a forma como se vestiam em suas apresentações. Boinas, bombachas apertadas, bandanas e até calças jeans e chapéu de cowboy foi demais para aqueles gaúchos de bombacha e cuia de chimarrão na mão.
A Tchê Music começou a ser lapidada nos primórdios dos anos 90 com o grupo Tchê Barbaridade, logo seguido por Tchê Garotos, Tchê Guri, Garotos de Ouro e outros. Eles colocaram percussão, guitarra elétrica e até mesmo DJ em seu instrumental. Na parte da mescla de ritmos, incorporaram forró, axé, sertanejo e rock. O resultado foi um som novo, vigoroso e empolgante e o consequente retorno do público jovem aos bailões.

Os Garotos de Ouro em ação, sem pilcha nem bombachaNo novo disco ao vivo dos Tchê Garotos, para nos atermos a um exemplo ilustrativo, na música “Eu Vou Te Amar” um desavisado poderia pensar que Batista Lima, vocalista da banda Limão com Mel, se mudou de mala e cuia de Salgueiro, sertão de Pernambuco, para Bagé, no coração dos pampas.
No entanto, tamanho sacrilégio não pode ser tolerado por muito tempo pelos arautos da tradição campeira. Em 2006 o MTG (Movimento Tradicionalista Gaúcho) se reuniu no Paraná (não tinham um lugar no Rio Grande do Sul para fazerem isso?) e decidiu endurecer as restrições aos grupos de Tchê Music. Como retaliação aos hereges, ficou decidido que eles a partir de então estariam expressamente proibidos de tocarem nos CTGs. Assim, da noite pro dia, mais de 3.000 pontos passíveis de se fazer show sumiram do mapa. Os Centros que desrespeitassem a resolução seriam notificados e até mesmo expulsos do MTG.
Tudo com as mais nobres e estúpidas boas intenções: a manutenção da ordem, da moral e dos bons costumes gaudérios.
Acontece que a música, como qualquer outra manifestação cultural, é algo vivo e, como todo ser vivo, cresce, se expande e dialoga com outros seres viventes; não pode ser engessada, estagnada em uma forma
específica e rígida. A música gaúcha, sob o controle dogmático da ala tradicionalista, se encontrava em tal estado de mais do mesmo que a molecada simplesmente não se interessava mais por ela. Se tem alguém que estava
assassinando a cultura gaúcha com excessivas doses de obsolência era justamente esses tradicionalistas, e não o pessoal da Tchê Music.Interessante notar que esse pessoal defensor da tradição parece ignorar que o vanerão, por exemplo, surgiu de uma mistura de diversos ritmos com a habanera, que floresceu em Havana, Cuba, há mais de 200 anos e foi a primeira música genuinamente afro-latino-americana. Se essas pessoas já apitassem naquela época, é bem provável que não tivéssemos hoje nem o vanerão, nem o Texeirinha.
Aliás, será que esse povo se lembra que o Texeirinha gravava samba canção?
originalmente publicado no site Bis -
Tudo Junto & Misturado
Postado em 62 de Discórdia de 3175 YOLD , às 7:24:68 Silêncio
Latino, como sempre, é o dono das melhores sacadas. Em seu novo disco, chamou vários amigos para fazer duetos. O resultado foi uma salada de ritmos capaz de fazer os puristas vomitarem as próprias tripas por quatro dias consecutivos. Latino sacou o espírito da época e graças às parcerias, misturou diversos estilos, com diversos graus de êxito.Mas não é do disco dele que quero falar aqui. Não agora. Agora é a hora de falar de uma revolução nem um pouco silenciosa que está ocorrendo na música brasileira. Não é a MPB, esta se encontra em estado catatônico e nada de empolgante pode se esperar dela. São os ritmos populares, aqueles que são tratados como lixo pela Zelite Cultural.
A globalização fez bem para os ritmos populares. Ao invés de comprarem briga com os pirateiros, usaram a contravenção para divulgar o seu som. Se ligaram que dinheiro se ganha é fazendo show, é trabalhando e não desfrutando a vista do mar em apartamento em Ipanema, enquanto o ECAD deposita a verba dos direitos autorais direto na conta corrente. Vai trabalhar vagabundo!
Só que o aspecto mais interessante dessa coisa toda é que os estilos começaram e se influenciar mutuamente. O sertanejo incorporou a batida do vanerão e aposentou a choradeira do primeiro boom causado por Leandro & Leonardo e Zezé di Camargo & Luciano. Os pioneiros foram Bruno & Marrone. Reparem, Chitãozinho & Chororó nunca foram muito inovadores, apenas seguiam a maré.
O vanerão, que ficou anos e anos engessado, mantido em cativeiro dentro dos CTGs (Centros de Tradição Gaúcha) chupinhou a batida do axé e do forró e modernizou-se, de modo a conquistar o público jovem, que já não suportava mais Gaúcho da Fronteira e Oswaldir & Carlos Magão. Tchê Garotos e o Grupo Tradição lotam estádios em suas turnês.O forró, desde a inovação estética e formal que foi o Mastruz com Leite nos primórdios dos anos 90, sempre foi afeito a antropofagias diversas, por vezes as mais sem noção. Os caras são capazes de adaptar qualquer música ao ritmo do forró. Na época do frissom do filme “Tropa de Elite”, até o A-ra-pa-pá eles conseguiram. E foram os Aviões do Forró que mais uma vez inovaram o estilo, com o minimalismo e a, por que não dizer? libertinagem do Pancadão carioca.
E a Banda Calypso, que eu considero a grande banda brasileira da década, influenciou todo mundo, principalmente com seu modus operandi: produção totalmente independente e vistas grossas à pirataria. Muito mais do que o anarco-capitalista Eike Batista, se tem um brasileiro que merece estar rico, este cidadão chama-se Chimbinha e neste momento está escolhendo as músicas de sua banda que estarão no playlist da próxima versão do Guitar Hero.Desnecessário dizer que com toda essa mistura houve um salto de qualidade no som de todo mundo. A festa é geral, tá todo mundo feliz pacas. Justamente por não pertencerem a Zelite Cultural, não ocorreram brigas de ego e nem ataques de ciumeira de parte alguma. Eu arrisco de dizer que estamos na eminência de uma grande revolução na música brasileira. Um amálgama sonoro com potencial planetário. Muito mais que aquela porcaria fabricada em laboratório chamada Lambada.
O mais irônico nisso tudo é que a enviada especial da Zelite, aquela imbecil da Regina Cazé, só fez foi atrasar essa revolução em alguns anos em seus programas em que não fazia outra coisa além de estereotipar pessoas como este que vos escreve, pobre da periferia.
E a MPB como a conhecíamos? Ah essa daí, no dia em que a MTV propôr um Estúdio Coca-Cola reunindo Latino e Caetano Veloso, aí sim deposito 5mg de esperança em sua ressurreição.
originalmente publicado no site Bis


