música original brasileira
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  • A mistura pantaneira que pega mais a cada dia

    Postado em 5 de Confusão de 3175 YOLD , às 5:10:35 timoteopintofnord Silêncio

    A maioria dos fãs do Grupo Tradição está tensa desde fevereiro, quando o vocalista Michel Teló tornou pública sua intensão de seguir carreira solo. Os pessimistas falam no fim da banda. Mas se a humanidade dependesse dos pessimistas, ainda estaríamos andando de quatro e trepados em árvores, com medo dos predadores. O mais provável é que teremos dois grandes nomes na música popular, ao invés de um. Um cantor romântico e uma das melhores bandas do sul do país.

    Ironicamente, o Tradição é o grupo que mais rompe com a tradição, levando a proposta de fusão de diversas culturas brasileiras com a Tchê Music às últimas conseqüências. Talvez a explicação para o êxito que os rapazes tiveram em injetar influências das mais diversas ao vanerão tradicional tocado no Rio Grande do Sul esteja em sua terra de origem. O grupo é de Campo Grande, Mato Grosso do Sul, um dos estados mais novos do Brasil e de desenvolvimento recente, que atrair imigrantes de diversas regiões do país.

    Tanto que entre os membros da banda encontramos representante de quatro estados da federação. O vocalista Michel é paranaense de Medianeira. O baixista Carlos Dias é do interior de São Paulo. O percusionista Arapiraka é alagoano de Arapiraca, obviamente. Os três restantes são de Campo Grande: o guitarrista Pekois, o baterista Anderson e aquele que é um dos maiores sanfoneiros desse Brasilzão véio sem porteira, Gerson Oliveira Martins, o Comédia.

    tradicao

    Sejamos sinceros, Michel é o galã, Arapiraka é o figura, Anderson é o maestro que conduz o show, Carlos e Pekois são presença, mas Gerson é o grande comediante que diverte a plateia com suas palhaçadas e atrai até as crianças para a legião de fãs do Tradição. Não é à toa que entre as comunidades de admiradores da banda no Orkut, a de Gerson é a maior. Claro, fora a do Michel, mas como ele é vocalista, não há termo de comparação.

    E é ao vivo que o Tradição se destaca. Quem assiste o show logo observa que eles têm mais postura e atitude rock’n’ roll maior que a maior parte das bandas de rock do Brasil na atualidade. A animação, o bom humor e a química entre os membros do grupo é contagiante e empolgante. O momento máximo (e o mais divertido) é a luta de sanfonas entre Michel e Gerson. Na hora da “briga”, eles usam seus instrumentos como armas, fazem palhaçadas, piadas, caem no chão… fazem o diabo.

    No show do primeiro DVD, por exemplo, eles tocam “Macarena” e fazem a dança de uma maneira que desperta aquela saudade reprimida que quase todo brasileiro sente dos Mamonas Assassinas. De costas para o público, os músicos fazem aquele rebolado totalmente sem noção que só pode ser realizado por quem tem pouco sangue africano nas veias. Ou seja, a maioria das pessoas do Centro-Oeste.

    Desde sua criação no ano de 1995, quando estrearam com um disco homônimo, o som do Tradição foi sendo lapidado aos poucos, com diversas trocas de músicos até se estabilizar no ano 2000, com a formação atual. De lá pra cá, o sucesso só aumentou.

    Se antes o grupo só tocava no próprio Estado, a partir do lançamento de seu terceiro disco, “Maria Fumaça”, começaram a ser reconhecidos em outros locais, a ponto de serem contratados pela Universal Music em 2001. Seu primeiro disco pela gravadora emplacou “Barquinho”, um hit nacional, já de cara:. No mesmo ano lançaram mais um disco, “Habanera Brasileira”, e com ele foram brindados com duas surpresas: a inclusão de “A brasileira” na trilha da novela “América” e de “Hei” na série Carga Pesada.

    Com o inovador projeto Micareta Sertaneja, no qual tocavam em cima de um trio elétrico, fizeram o segundo DVD e receberam seu primeiro disco de ouro das mãos do apresentador Fausto Silva. O DVD que está nas lojas já emplacou hits como “Você Não Vale um Real”, a impagável “Apa (Apaixonado Por Você)” – em que o baterista Anderson interpreta o refrão gaguejante -, mais a “Megasena do Amor” e “Festa na República”.

    Que a saída de Michel é um desafio é fato. Mas para uma banda que sempre inventou e se reinventou, provavelmente isso será mais uma oportunidade para o público ser presenteado com um balaio de sucessos de bomba e explodir.


    originalmente publicado no site Bis

  • Mas Bah Tchê! Isso não é coisa de gaúcho!

    Postado em 64 de Discórdia de 3175 YOLD , às 7:58:67 timoteopintofnord Silêncio

    A notícia é antiga, no entanto pouco se comenta fora do Rio Grande do Sul. Desde 2006, os grupos da chamada Tchê Music não podem mais usar a pilcha (bota, bombacha, guaiaca) por serem considerados traidores da tradição gaúcha. Seu crime? Modernizar a música gaúcha com a inclusão de novos instrumentos e novas referências sonoras. Que os CTGs cultivem a tradição e evitem que essas bandas toquem em suas dependências é compreensível, mas estender a proibição ao vestuário beira o absurdo.

    Não que esses grupos façam ou fizessem questão da pilcha. Uma das críticas que os tradicionalistas mais faziam a eles era inclusive seu “desleixo” quanto a forma como se vestiam em suas apresentações. Boinas, bombachas apertadas, bandanas e até calças jeans e chapéu de cowboy foi demais para aqueles gaúchos de bombacha e cuia de chimarrão na mão.

    A Tchê Music começou a ser lapidada nos primórdios dos anos 90 com o grupo Tchê Barbaridade, logo seguido por Tchê Garotos, Tchê Guri, Garotos de Ouro e outros. Eles colocaram percussão, guitarra elétrica e até mesmo DJ em seu instrumental. Na parte da mescla de ritmos, incorporaram forró, axé, sertanejo e rock. O resultado foi um som novo, vigoroso e empolgante e o consequente retorno do público jovem aos bailões.

    tchegarotos
    Os Garotos de Ouro em ação, sem pilcha nem bombacha

    No novo disco ao vivo dos Tchê Garotos, para nos atermos a um exemplo ilustrativo, na música “Eu Vou Te Amar” um desavisado poderia pensar que Batista Lima, vocalista da banda Limão com Mel, se mudou de mala e cuia de Salgueiro, sertão de Pernambuco, para Bagé, no coração dos pampas.

    No entanto, tamanho sacrilégio não pode ser tolerado por muito tempo pelos arautos da tradição campeira. Em 2006 o MTG (Movimento Tradicionalista Gaúcho) se reuniu no Paraná (não tinham um lugar no Rio Grande do Sul para fazerem isso?) e decidiu endurecer as restrições aos grupos de Tchê Music. Como retaliação aos hereges, ficou decidido que eles a partir de então estariam expressamente proibidos de tocarem nos CTGs. Assim, da noite pro dia, mais de 3.000 pontos passíveis de se fazer show sumiram do mapa. Os Centros que desrespeitassem a resolução seriam notificados e até mesmo expulsos do MTG.

    Tudo com as mais nobres e estúpidas boas intenções: a manutenção da ordem, da moral e dos bons costumes gaudérios.

    Acontece que a música, como qualquer outra manifestação cultural, é algo vivo e, como todo ser vivo, cresce, se expande e dialoga com outros seres viventes; não pode ser engessada, estagnada em uma forma
    específica e rígida. A música gaúcha, sob o controle dogmático da ala tradicionalista, se encontrava em tal estado de mais do mesmo que a molecada simplesmente não se interessava mais por ela. Se tem alguém que estava
    assassinando a cultura gaúcha com excessivas doses de obsolência era justamente esses tradicionalistas, e não o pessoal da Tchê Music.

    Interessante notar que esse pessoal defensor da tradição parece ignorar que o vanerão, por exemplo, surgiu de uma mistura de diversos ritmos com a habanera, que floresceu em Havana, Cuba, há mais de 200 anos e foi a primeira música genuinamente afro-latino-americana. Se essas pessoas já apitassem naquela época, é bem provável que não tivéssemos hoje nem o vanerão, nem o Texeirinha.

    Aliás, será que esse povo se lembra que o Texeirinha gravava samba canção?


    originalmente publicado no site Bis