Tudo Junto & Misturado
música original brasileira-
Marketing Esquema Novo
Postado em 19 de Burocracia de 3175 YOLD , às 7:68:68 SilêncioEnquanto as gravadoras se enredam cada vez mais na teia global da web e projetam na pirataria toda sua frustração diante da implacável vassoura do tempo, que varre para o lixo tudo o que deixa de ser útil para a cultura humana; os artistas populares brasileiros já possuem praticamente pronto, testado e aprovado, seu novo modelo de produção, distribuição e consumo de música.
A solução para os desafios impostos pelos novos tempos foi sendo construída aos poucos, fruto da necessidade e de algumas grandes idéias. As duas primeiras grandes idéias nasceram paralelamente na cachola de duas pessoas que não tinham contato entre si: Cledivan Almeida Farias, também conhecido como Chimbinha e Antonio Isaias, o genial visionário que inventou os Aviões do Forró.
A história de Chimbinha já é relativamente conhecida, construiu uma carreira de sucesso totalmente à revelia das gravadoras e da mídia, tornando sua Banda Calypso a maior banda independente do Brasil. Já a idéia de Isaías foi bem mais radical e inusitada, distribuir CDs promocionais gratuitamente nos shows dos Aviões do Forró. E ficou rico fazendo isso! Hoje sua empresa, a A3 Entretenimentos é dona das duas maiores casas de shows de Fortaleza, o Clube Kangalha e o Forró do Sitio, além de várias bandas, dentre elas a grande promessa do forró atual: o Forró do Muído.
Como todo ovo de colombo, a lógica é simples. Como a grande maioria das bandas de forró sobrevivem de suas turnês pelo sertão e o baixo poder aquisitivo no semi-árido é um fato conhecido, o povo dava o maior valor ao presente e os discos eram escutados à exaustão. Depois de dois discos meia bomba, mas com o nome consolidado no norte e norteste, eis que os Aviões lançam o volume 3, uma das maiores obras primas da musica original brasileira moderna.
O Aviões do Forró Volume 3 caiu feito uma bomba. De repente, aquele CDzinho com a inscrição Promocional Invendável foi executado massivamente de Fortaleza a Bodocó, de Picos do Piauí a Patos da Paraíba, deixando bem claro qual era a banda de forró da década, gerando uma miríade de imitações e ditando as regras de como deveria ser a sonoridade forrozeira dali pra frente. Mas não só no som e sim demontrando a todos os mais atentos que os CDs deixaram de ser um produto com fins lucrativos e passaram a ser cartões de visita e material de divulgação.
Uma dessas pessoas mais atentas que citei, tem em seu registro de nascimento o nome de Edivaldo Fernando de Oliveira e é nacionalmente conhecido com o pseudônimo de DJ Maluco. Um ano depois de Isaias ter inventado o CD promocional invendável ele já estava adotando a prática. Dj Maluco é umas das figuras mais subestimadas da cultura brasileira. Trata-se do maior anarco capitalista deste país e com sua banda Bonde do Forró, faz um trabalho de divulgação fantástico do ritmo nas regões sulinas. Além de ser uma pessoa com uma sinceridade cortante. Quando o questionei qual era o gênero musical do disco que ele gravou em dupla com Aladin, não vacilou em responder: “seria sertanejo oportunista?” Quando perguntado sobre o porque de ele divulgar os links para downloads das obras de suas bandas em tudo quanto é comunidade do Orkut, mandou essa: “cada download que alguém faz, é um disco a menos que preciso dar”.
- E você distribui o CDs onde, DJ Maluco?
- Nos shows de outros artistas, na saída, pra neguinho não perder.
- De outros artistas?
- Sim, pois quem gosta de Gino e Geno ou Rio Negro & Solimões, provavelmente gostará de Bonde do Forró ou Bonde Sertanejo. Além do quê, se meu produto for bom, estoura.A prática chegou agora ao extremo sul. Semana passada, no show de lançamento do novo disco do Tchê Barbaridade, todo mundo voltou pra casa com seu disquinho promocional. Segundo o agitador cultural gaúcho Dj Gotcha, os números comprovam a viabilidade da gratuidade. Com capa de papelão, um disco destes sai por menos de R$2,00 e será tocado em diversos players para diversos ouvintes, num custo final muito menor do que o jabá para as radios e infinitamente menor, por exemplo, do que uma Som Livre da vida gasta em propagandas em horário nobre para telespectadores que provavelmente não compram mais CDs em lojas.
A outra ponta de lança do Marketing Esquema Novo, que é como eu chamo a forma de contribuição para a Fundação Trocadalhos do Carilho, é a pirataria. Hoje em dia os artistas que querem acontecer no mercado precisam ter seu DVD. Alguns, como Jorge e Mateus ou Fernando & Sorocaba, só possuem DVDs em suas discografias, o áudio praticamente só serve para os MP3 players. Como o custo de um DVD nos megastores atinge valores caralhosféricos, a pirataria é saída para o consumo destes produtos.
Então, os mais espertos entregam seus DVDs nas mãos dos pirateiros e aguardam a roleta da seleção natural do gosto popular. Stefhany fez isso e se deu bem. João Bosco & Vinicius, apesar de hoje renegarem a pirataria, fizeram isso e se deram bem. A banda de Tecno Melody Baiana Djavú, também fez isso ao dar uma resteira na Banda Ravelly regravando seu disco inteiro e se deu tão bem que fazem mais de cinquenta shows por mês e estão tão famosos a ponto das pessoas pensarem que a Ravelly que é a imitação.
Como as gravadoras estão reagindo diante desse cenário? Na maior parte dos casos fechando os olhos ou enfiando a cabeça em um buraco e repetindo mentalmente: “eu não estou aqui e isso não está acontecendo, eu não estou aqui e isso não está acontecendo…” enquanto seus gráficos de vendas despencam em queda livre. A crise é generalizada e a única solução que se ouve falar é de um possível acordo com empresas de telecom para venda casada de música e acesso a web em celulares. Se eu não tivesse perdido milhares de Reais em CDs que hoje estão todos arranhados, sentiria compaixão por essa gente.
É claro que eu posso estar completamente equivocado com minhas teorias, mas adoraria saber que foi aquele povinho sem cultura que os intelectuais desprezam, que inventou o Marketing Esquema Novo que deu o tiro de misericórdia na exploração capitalista da cultura musical e realizou o sonho de Walter Benjamim.
PS.: Você não sabe que diabéisso de Walter Benjamin? Explico direitinho nesta minha antiga coluna.
publicado originalmente no site Bis
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Chimbinha & a música eletrônica amazônica
Postado em 73 de Confusão de 3175 YOLD , às 4:65:37 SilêncioSemana passada postei no meu blog uma longa entrevista que Chimbinha deu para a revista Trip. Desde o ano passado que a Rolling Stone cogitava uma matéria com a banda Calypso, contando como eles atingiram o topo sem depender de gravadoras ou da mídia. Pelo visto, a Trip continua afiada e fazendo jus ao mote “A Trip deu antes”. Mas não é visionarismo editorial o assunto desse texto, e sim uma declaração de Chimbinha sobre o tecnobrega.
Ele não gosta. Direito dele. Eu não gosto do cantor sertanejo Eduardo Costa. Direito meu. O que acontece é o velho choque de gerações. Na época dele, Chimbinha também encontrou resistência por parte de quem não estava acostumado com aquele ritmo novo, o calypso, que ele havia ajudado a desenvolver. Agora que deixou de ser pedra para virar vidraça, é a sua vez.
Mas é sacanagem minha comprar treta com o cara que eu considero meu Modelo de Gestão de Biografia. Pago tanto pau pra ele que até larguei a cachaça para ficar só no vinho. O que eu quero discutir aqui são os argumentos que ele usou para detonar os tecnobregas. Que fique bem claro: Chimbinha apenas expressou sua opinião, sem nenhuma maldade. Tanto é que ele ressaltou que o pessoal faz sucesso e que o sucesso precisa ser respeitado. Vou colar aqui os argumentos daquele que conhece os peixes amazônicos raros de brincar com eles, mergulhando nos rios quando era criança.

“O sujeito faz um jingle no computador falando o nome da sua aparelhagem e toca nas próprias festas, nos carros de som, aluga rádio pra tocar também. Deixaram de tocar a gente… Eu não curto muito esse som de coisas eletrônicas. Gosto de música com instrumentos. No tecnobrega, o jingle virou a própria música.”
Os estudantes do segundo semestre de psicologia vão reparar de cara um certo ressentimento pelo fato dos tecnobregas não tocarem o Calypso. E não tocam mesmo. Os motivos estão na minha fila de espera para serem averiguados. Outra hora farei isso com toda a certeza. Outra verdade é que as aparelhagens ficam mesmo tocando músicas autoreferentes. Agora dizer que isso é ruim por si só, é por demais precipitado. Só que antes de analisar o assunto com mais profundidade, cabe aqui uma introdução ao assunto, porque o pop de Belém é tão endêmico, tão diferentão, que quem está de fora não entende lhufas.
As chamadas aparelhagens são as grandes festas de tecnobrega de Belém. Uma aparelhagem é composta por um paredão de caixas de som e no centro fica a cabine do DJ. As aparelhagens são empresas, cada uma com seu próprio cast de DJs, e a rivalidade entre elas é semelhante a dos times de futebol. Atualmente as maiores aparelhagens são Rubi, Super Pop, Hiper Cyclone e Mega Príncipe. São elas, digamos assim, as estrelas de primeira grandeza. As estrelas de segunda grandezas são os DJs. Eles são cultuados a ponto das pessoas ficarem o tempo inteiro assistindo suas performances na cabine como se estivessem contemplando uma banda. O destaque é tanto que as cabines recebem nomes pomposos como Águia de Fogo ou Duplo Cyber Comando. Só em terceiro lugar vêm os cantores e bandas.
É assim que a coisa funciona e esse sistema foi emergindo aos poucos, conforme a música evoluía e o cenário se consolidava. Para serem tocados nas aparelhagens, cantores e bandas fazem músicas exaltando uma ou outra e citando os nomes dos DJs. Isso faz com que a música produzida lá tenha um poder de alcance extremamente local, mas de forma alguma isso diminui a qualidade e a originalidade. As melhores músicas são mesmo as das aparelhagens, isso é fato. Só que a maneira como Chimbinha se referiu a elas faz com que soe como picaretagem. Não é. As coisas por lá funcionam assim e ponto.

A verdade é que o pessoal de Belém desenvolveu uma nova forma, extremamente original, de se fazer musica eletrônica partindo da matriz brega. Já existem até alguns subgêneros, como o romântico melody ou o pesado eletro. As idiossincrasias que impedem o gênero de conquistar o país estão aos poucos sendo superadas. A banda AR-15 já se apresentou em programas de TV do sudeste e a Ravelly está fazendo muitos shows pelo interior do norte e nordeste – eles já se apresentaram até em São Paulo. O sertão nordestino costuma ser um laboratório e um termômetro das tendências da música popular, e a grande moda por lá é o brega eletrônico, que é como eles chamam o tecnobrega.
Outro nome que está causando sensação por onde passa vem da Bahia (e baianos costumam ser muito espertos…) Eles foram espertos quando inventaram o termo “arrocha” para o som tocado nas serestas, com um vocalista e um teclado. Inventaram o arrocha e com ele toda uma cena que hoje faz muito sucesso nas periferias de Salvador e no interior. Com o tecnobrega, eles mais uma vez demonstram sua astúcia. A banda baiana Djavú (confesso que ri muito quando li esse nome prela primeira vez), por exemplo, regravou o disco inteiro da Ravelly, mudando só alguns trechos de letras e títulos, e hoje estão fazendo fama em sua turnê. Em São Paulo, eles são o nome do momento nos camelôs, o que fez muita gente em Belém dar pulos de raiva, alegando plágio – a própria Ravelly entrou na justiça contra a Djavú, mas enquantos acontecem os trâmites legais, a maioria pensa que os paraenses é que estão copiando os baianos, quando o contrário é verdadeiro.
Desonestidade do pessoal da Djavú? Disso não tenho dúvida. Mas o que eu também não tenho dúvida é que os caras são mesmo muito espertos. Eles usam a pirataria como uma estratégia de marketing de uma maneira impressionantemente eficiente. Tanto é que foi no Terminal do Guaraituba, em Colombo (cidade vizinha a Curitiba e que tem a honra de ter este colunista como morador), que comprei meu DVD deles. Agora respondam: os paranaenses geram demanda a ponto dos pirateiros conseguirem as cópias? Nada! Aqui, 99,99999999% nunca ouviu tecnobrega e jamais pediria aos ambulantes. São os próprios caras da Djavú que colocaram o DVD na mão dos pirateiros, podem ter certeza.

A estratégia funcionou tão bem que em julho eles se apresentaram em São Paulo junto com o Forró do Muído em um show que reuniu 12 mil pessoas. A maioria não estava ali para ver Simone e Simaria, mas sim a banda que é praticamente um casal de cantores, um DJ com um laptop e umas vinte bailarinas de calcinha. Guitarra e baixo estão lá só pra figurar. Aliás, eu não duvido que o DJ Juninho Portugal, da Djavú, apenas dê um play no Winamp do computador e fique no MSN até o fim do show. Vai saber até que ponto vai a falcatruagem.
Brigas à parte, o que a Djavú faz com o tecnobrega é bem semelhante ao que o Bonde do Forró, banda do venerável Mestre Dj Maluco, faz com o forró: divulgação. O Bonde do Forró faz um imenso sucesso no sul e sudeste apenas tocando covers, com vocalistas que imitam com perfeição os originais. O vocalista Lauro é um clone tão perfeito do Bruno da dupla Bruno & Marrone que muita gente chega a confundir quando ouve as músicas no rádio.
Assim como o funk é a grande promessa de sucesso mundial da música brasileira, o tecnobrega é a grande promessa de novo sucesso nacional. Meu sonho é ganhar na Mega-Sena, mudar pra Belém, me cercar de um harém de dançarinas lindas e gostosas e gravar o disco que fará sucesso em massa em 2010. Só que ultimamente não tenho conseguido acertar uma dezena sequer na Mega-Sena; cheguei ao ponto de chavecar quase todas as minas que me dão trela no ônibus, pois pelo menos no amor tenho que ter um pentelheziminho de sorte. O Chimbinha, com certeza, e por mais que eu pague pau pra sua pessoa, não vai financiar esse meu sonho. Tudo bem, não dá nada, não deixo de admirar sua carreira por causa desses deslizes mínimos. O disco ainda está nos meus sonhos, mas capa já está pronta.

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DJ Maluco, Aladin e o mistério do disco que vazou
Postado em 9 de Confusão de 3175 YOLD , às 5:19:97 SilêncioOs casos são tantos que já podemos afirmar que o termo hit está em extinção no vocabulário da música pop. Agora o termo mais adequado para designar uma música de sucesso é viral. A diferença básica entre os dois está na maneira como nascem e ilustram a mudança que vem ocorrendo na produção e no consumo de música.
Os hits eram da época do broadcasting, isto é, quando um único emissor mandava a mesma informação pra a massa de receptores. As grandes rádios veiculavam as músicas e todo mundo ouvia a mesma coisa. Dessa forma, muitos sucessos eram literalmente fabricados, muitas vezes de maneiras escusas, pelas gravadoras e pelos donos de rádios. Hoje em dia isso mudou radicalmente. Com a internet qualquer um pode ser gerador de conteúdo, e isso leva a um processo de seleção natural no qual o gosto popular é o fator que decide o que faz sucesso, por meio de um fenômeno que é chamado de viral. Uma dinâmica muito mais democrática, diga-se de passagem.

Um dos mais recentes virais ocorreu de uma maneira muito curiosa e está revelando uma das melhores duplas da atualidade: DJ Maluco e Aladin. A história foi mais ou menos assim:
Em setembro do ano passado, num churrasco na casa do DJ Maluco, ele e Aladin decidiram gravar só de brincadeira os sucessos da carreira de cada um. O sanfoneiro Bolinha levou a gravação pra casa, editou e gravou um CD para escutar no carro. Ao ouvirem o disco, alguns conhecidos pediram uma cópia e, a princípio, tudo acabaria ali mesmo, sem maiores consequências.
Um mês depois o DJ foi fazer um passeio na feirinha do bairro perto de sua casa quando ouviu as músicas gravadas no churrasco. Surpreso, foi conversar com o ambulante e se surpreende ainda mais: já haviam CDs à venda entre os pirateiros. O vendedor disse que a gravação estava na internet e que era um dos discos mais vendidos. Quanto a quem postou na rede, trata-se de um mistério inescrutável. Imediatamente DJ Maluco ligou para Aladin, era ouvir pra crer. Naquele momento, estava criada a dupla DJ Maluco e Aladin, que prontamente convidou cerca de 400 fãs e amigos para regravar o mesmo repertório com uma qualidade melhor. O disco pode ser baixado de graça no site da dupla.
Os dois já são veteranos da música popular. Aladin fazia parte da dupla sertaneja Alan & Aladin, que ficou conhecida no país todo com o sucesso “Liguei Pra Dizer que Te Amo” e acabou há cinco anos, depois que Aladin virou evangélico. O DJ Maluco, por sua vez, já gravou 11 discos. Um de funk com o DJ Marlboro, três de dance, um de sertanejo e sete de forró. E foi com os discos de forró que começou a fazer sucesso, e por causa deles se mudou para o Ceará.
O DJ maluco está inclusive no Museu da Lingua Portuguesa, por conta da invenção do “house amazônico” há 15 anos. Ele conta que não ganhou nada além da bonificação de R$ 3.500 e do orgulho dos filhos, que tinham vergonha do pai que tocava forró até voltarem orgulhosos de uma excursão em São Paulo.
O disco Sem Amor Não Dá tem uma energia poderosa e é difícil de rotular, pois eles misturam forró, brega, sertanejo e outros ritmos, numa fusão muito próxima daquela que previ na minha primeira coluna para o BiS. A dupla toca de clássicos sertanejos e músicas consagradas pelos Aviões do Forró a sucessos do ultra cool bregueiro Tayrone Cigano. Com solos de guitarra impressionantes, a versão de “Tinha que Ser Agora” do Tayrone é definitiva.
Para aqueles que conheciam o DJ Maluco pelos shows anárquicos em que ele tocava Padre Marcelo Rossi, Xuxa e “Quem Vai Pegar a Minha Periquita”, aviso já que a coisa hoje é bem diferente e os shows são de respeito. É que ele agora também é um cristão, homem de família, de uma mulher só e que pretende seguir com a dupla por muitos e muitos anos. Se o próximos discos forem tão bons quanto esse de estréia, que ele prossiga com Deus.
originalmente publicado no site Bis -
A mistura pantaneira que pega mais a cada dia
Postado em 5 de Confusão de 3175 YOLD , às 5:10:35 SilêncioA maioria dos fãs do Grupo Tradição está tensa desde fevereiro, quando o vocalista Michel Teló tornou pública sua intensão de seguir carreira solo. Os pessimistas falam no fim da banda. Mas se a humanidade dependesse dos pessimistas, ainda estaríamos andando de quatro e trepados em árvores, com medo dos predadores. O mais provável é que teremos dois grandes nomes na música popular, ao invés de um. Um cantor romântico e uma das melhores bandas do sul do país.
Ironicamente, o Tradição é o grupo que mais rompe com a tradição, levando a proposta de fusão de diversas culturas brasileiras com a Tchê Music às últimas conseqüências. Talvez a explicação para o êxito que os rapazes tiveram em injetar influências das mais diversas ao vanerão tradicional tocado no Rio Grande do Sul esteja em sua terra de origem. O grupo é de Campo Grande, Mato Grosso do Sul, um dos estados mais novos do Brasil e de desenvolvimento recente, que atrair imigrantes de diversas regiões do país.
Tanto que entre os membros da banda encontramos representante de quatro estados da federação. O vocalista Michel é paranaense de Medianeira. O baixista Carlos Dias é do interior de São Paulo. O percusionista Arapiraka é alagoano de Arapiraca, obviamente. Os três restantes são de Campo Grande: o guitarrista Pekois, o baterista Anderson e aquele que é um dos maiores sanfoneiros desse Brasilzão véio sem porteira, Gerson Oliveira Martins, o Comédia.

Sejamos sinceros, Michel é o galã, Arapiraka é o figura, Anderson é o maestro que conduz o show, Carlos e Pekois são presença, mas Gerson é o grande comediante que diverte a plateia com suas palhaçadas e atrai até as crianças para a legião de fãs do Tradição. Não é à toa que entre as comunidades de admiradores da banda no Orkut, a de Gerson é a maior. Claro, fora a do Michel, mas como ele é vocalista, não há termo de comparação.
E é ao vivo que o Tradição se destaca. Quem assiste o show logo observa que eles têm mais postura e atitude rock’n’ roll maior que a maior parte das bandas de rock do Brasil na atualidade. A animação, o bom humor e a química entre os membros do grupo é contagiante e empolgante. O momento máximo (e o mais divertido) é a luta de sanfonas entre Michel e Gerson. Na hora da “briga”, eles usam seus instrumentos como armas, fazem palhaçadas, piadas, caem no chão… fazem o diabo.
No show do primeiro DVD, por exemplo, eles tocam “Macarena” e fazem a dança de uma maneira que desperta aquela saudade reprimida que quase todo brasileiro sente dos Mamonas Assassinas. De costas para o público, os músicos fazem aquele rebolado totalmente sem noção que só pode ser realizado por quem tem pouco sangue africano nas veias. Ou seja, a maioria das pessoas do Centro-Oeste.
Desde sua criação no ano de 1995, quando estrearam com um disco homônimo, o som do Tradição foi sendo lapidado aos poucos, com diversas trocas de músicos até se estabilizar no ano 2000, com a formação atual. De lá pra cá, o sucesso só aumentou.
Se antes o grupo só tocava no próprio Estado, a partir do lançamento de seu terceiro disco, “Maria Fumaça”, começaram a ser reconhecidos em outros locais, a ponto de serem contratados pela Universal Music em 2001. Seu primeiro disco pela gravadora emplacou “Barquinho”, um hit nacional, já de cara:. No mesmo ano lançaram mais um disco, “Habanera Brasileira”, e com ele foram brindados com duas surpresas: a inclusão de “A brasileira” na trilha da novela “América” e de “Hei” na série Carga Pesada.
Com o inovador projeto Micareta Sertaneja, no qual tocavam em cima de um trio elétrico, fizeram o segundo DVD e receberam seu primeiro disco de ouro das mãos do apresentador Fausto Silva. O DVD que está nas lojas já emplacou hits como “Você Não Vale um Real”, a impagável “Apa (Apaixonado Por Você)” – em que o baterista Anderson interpreta o refrão gaguejante -, mais a “Megasena do Amor” e “Festa na República”.
Que a saída de Michel é um desafio é fato. Mas para uma banda que sempre inventou e se reinventou, provavelmente isso será mais uma oportunidade para o público ser presenteado com um balaio de sucessos de bomba e explodir.
originalmente publicado no site Bis -
Forró do Muído: pé de serra para o século XXI
Postado em 69 de Discórdia de 3175 YOLD , às 6:92:89 MonólogoA Banda Calypso tem uma legião quase religiosa de fãs. No entanto, no show do dia 20 de março no Centro de Tradições Nordestinas em São Paulo quem roubou a cena foi uma banda nova do Ceará. Atuando no circuito de shows do norte há dois anos, o Forró do Muído parece repetir a mesma história de sucesso e fanatismo da banda de Chimbinha.
O Forró do Muído surgiu em 2007 quando Isaias, um dos empresários da A3 Entretenimentos, dona dos Aviões do Forró, resolveu montar uma banda de forró pé de serra. Só que o pessoal da A3 não costuma seguir fórmulas batidas, logo, trataram de modernizar sua banda somando à tradicional formação sanfona/zabumba/triângulo um baixo elétrico, bateria adicional e a grande sacada, o saxofone de Fabiano. No front, o vocal Binha Cardoso, forrozeiro das antigas com passagem em bandas como Canários do Reino e Brasas do Forró.
Mas ainda faltava uma vocalista que deixasse Isaías satisfeito. Várias já haviam sido testadas, mas nenhuma se encaixava com o perfil da banda. Foi quando recebeu uma ligação de Fernando Gusmão, empresário da banda Rasta Chinela, e soube que Simaria, antiga vocalista da banda do deputado federal Frank Aguiar, estava insatisfeita com os resultados da dupla que mantinha com sua irmã Simone. Já conhecendo o trabalho das duas, Isaias chamou imediatamente as meninas para uma conversa em Fortaleza. Elas eram tudo o que eles queriam para complementar o recém formado Forró do Muído.

No princípio a banda foi tocando em pequenos eventos particulares para que fosse testado o efeito daquele estilo diferente na platéia. O repertório jovem, o som envolvente e o carisma das vocalistas foi cativando o público até o ponto em que o pessoal da A3 decidiu gravar o primeiro CD promocional da banda. Com o lançamento do disco, de imediato a música “Deletando o Amor” foi subindo nas paradas das rádios até atingir o primeiro lugar.
O sucesso da música motivou o lançamento do segundo disco, e desta vez foram quatro hits. Daí para se tornarem o maior fenômeno no norte e nordeste da atualidade foi uma questão de meses. Com uma agenda lotada e fazendo uma média de trinta e seis shows por mês, o Forró do Muído está pronto, lapidado para estourar em todo o país. Enquanto bandas como os Aviões do Forró sentem dificuldade em serem digeridas fora do nicho forrozeiro, o som diferenciado do Muído tem potencial para vencer essa limitação.
Falar das apresentações do Muído para quem não os assistiu ao vivo é uma tarefa ingrata. Simone e Simaria são mestres na arte do improviso a ponto de seguramente podermos chamar o que elas fazem de forró free style. Simara, por exemplo, no meio de um show inventou do nada a sua versão pra Dança do Créu, que imediatamente caiu nas graças do povo. Outra característica fundamental das duas são os bordões, como “vocês são óóóóóóótimos” ou “vai coleguinha, vai vai coleguinha”, que acabam virando gíria corrente entre os fãs.
Os detalhes que fazem a diferença são tantos que eu poderia ficar horas descrevendo. Um dos mais interessantes são as chamadas Raves do Muído, que é quando eles são escalados para serem a última banda a tocar nos eventos e o arrasta pé se estende até o raiar do dia.
Só que se você ficou curioso e afim de comprar um CD deles, nem pense em ir a uma loja. Todos os quatro discos promocionais deles são distribuídos de graça nos shows (invenção do Isaías, que eu poderia gastaria uma coluna inteira pra falar sobre ele) ou então adquiridos no, digamos assim, mercado informal. A banda está trabalhando seu primeiro disco de estúdio com previsão de lançamento em junho nas festividades de São João.
Essa história não termina aqui, essa história está apenas começando. E para os marmanjos folgados tais quais este escriba, deixo um brochante recado: Simaria está namorando um espanhol que ela conheceu pelo Orkut.
Pela sanfona de Luis Gonzaga! Poderia ter sido eu!
PS do Timpin.: Deixo aqui um imenso muito obrigado pro pessoal do blog do Muído
originalmente publicado no site Bis -
A salvação da produção musical vem da selva
Postado em 64 de Discórdia de 3175 YOLD , às 7:86:37 SilêncioParece que a Amazônia não detém só o potencial de salvar o ecosistema planetário, mas tambem o de salvar a produção musical da falência decretada pelo mp3. Saiu na web recentemente um livro em pdf organizado por Ronaldo Lemos e Oana Castro, dentre outros, chamado “Tecnobrega: O Pará Reinventando o Negócio da Música”, que traz a tábua de salvação para os artistas que estão vendo suas carreiras irem para o ralo com a falência da industria fonográfica.
Que esta indústria está falida, ninguém com suas faculdades mentais intactas é capaz de questionar. Os números comprovam, sob qualquer ponto de vista que se analise a questão. Victor & Leo, o maior fenômeno pop da atualidade, não consegue nem de longe chegar na marca de um milhão de discos vendidos. O próprio rei Roberto Carlos, que sempre foi aposta ganha de antemão, não consegue mais atingir a marca.
O que a cena brega de Belém inventou não foi feito com intensões políticas nem ideológicas, mas sim como alternativa de sobrevivência cultural e financeira por parte dos envolvidos. De uma maneira simplificada, podemos dizer que negócio do tecnobrega funciona de acordo com o seguinte ciclo de realimentação, composto por sete etapas:
1) Os artistas gravam seus discos em estúdio – próprio ou de terceiros.
2) As melhores produções são levadas a reprodutores de larga escala ou camelôs.
3) Camelôs vendem os discos a preços compatíveis com a realidade local e os divulgam.
4) DJs tocam esses discos nas festas.
5) Os artistas são contratados para shows.
6) Nos shows, CDs e DVDs são gravados e vendidos.
7) Músicas e bandas fazem sucesso e realimentam o processo.Esse modelo é extremamente funcional, tanto para os artistas quanto para o público, gerando fonte de renda para muita gente. Um estudo da FGV prova isso com números: cada ambulante vende em média 300 CDs e 200 DVDs por mês. A maior parte das vendas vem dos grandes reprodutores (cerca de 80%). No entanto, 17% das vendas vêm da reprodução própria – o que, baseado no volume total de discos vendidos em Belém e na região metropolitana, é um montante considerável na análise da geração de renda.
No caso específico da cena tecnobrega, pesa também a questão das festas de aparelhagem. Elas reúnem milhares de baladeiros que veneram as aparelhagens como se fossem astros. As gigantestescas paredes de caixas de som produzem um tsunami sonoro que literalmente faz o chão tremer. A cabine dos DJs, chamadas de Altar Sonoro, têm nomes sugestivos como Nave do Som ou Duplo Cyber Comando e são equipadas com a mais alta tecnologia de produção de efeitos sonoros e visuais. Todos a observam como se fossse uma banda tocando no palco.
As aparelhagens mais famosas hoje são a Tupinambá, Rubi, Ciclone e Super Pop. Como as festas costumam durar um fim de semana inteiro, como raves, acabam gerando procura por artistas tecnobregas e favorecem o surgimentos de novos grupos, fazendo com que a cena tenha um crescimento contínuo e, dessa forma, contribuindo de forma decisiva para o novo modelo de produção musical nascido na Amazônia.

Em termos de êxito comercial, a Banda Calypso é o expoente máximo dessa metodologia de trabalho no que podemos chamar de Método Chimbinha de Gerenciamento de Carreiras. A dupla Joelma e Chimbinha inventou uma nova maneira de se virar sem depender de gravadoras comerciais. Eles criaram seu próprio selo e começaram a vender seus discos a preços mais acessíveis – entre R$ 5 e R$10 – em supermercados populares, feiras, festas e locais frequentados por fãs potenciais. A estratégia deu certo e o resultado todos já constataram.
Quando falei que a Banda Calypso era a banda brasileira da década a primeira coluna aqui no BiS, muita gente me chamou de louco suicida, esquecendo-se de que além de serem os grandes divulgadores desse modelo que pode salvar a produção de música no país, Joelma e Chimbinha são os maiores vendedores de discos do Brasil. Outra opinião minha que costuma arrancar gargalhadas de quem é adepto do senso comum é que Victor & Leo deveriam dar um pé na bunda da Sony Music. Além de não precisarem da multinacional, serviriam de exemplo para disseminar essa revolução na produção musical também no sul do país.
Como conclui Hermano Viana no texto da orelha do livro: “Quem quiser pensar o futuro da música não pode ignorar as lições tecnobregas da Amazônia digital.”
originalmente publicado no site Bis -
Pirataria legal
Postado em 64 de Discórdia de 3175 YOLD , às 7:83:34 SilêncioGustavo CDs. Henrique CDs. Rodolfo CDs. Quem escuta os discos ao vivo das bandas do nordeste está habituado a ouvir esses nomes. Trata-se do sujeito que grava o show e que no dia seguinte colocará à venda o CD com a apresentação, de modo que o fã possa continuar se emocionando no conforto de seu lar.
Essa tradição é antiga. Ainda nos anos 90, Chiquinho da Discofran de Viçosa (CE) fazia suas gravações e as lançava em vinil. Com a chegada do CD e o consequente barateamento da gravação e reprodução, a moda pegou. Hoje em dia, praticamente todos os shows são gravados, no que pode ser classificado como institucionalização da pirataria, apesar de muitos não se considerarem pirateiros, mas divulgadores. Tanto que não é preciso pagar nada para a banda, basta um OK do dono da casa de shows e dos artistas.
Enquanto um Biquini Cavadão leva uma carreira inteira para lançar um disco ao vivo repleto de equívocos, os Aviões do Forró têm mais de duzentos “ao vivos” para download em sua comunidade no Orkut, todos relevantes, pois raramente o grupo repete músicas em seus shows. E a qualidade das gravações é surpreendente. Segundo Rodolfo Cezar, de Fortaleza, ela não depende apenas de quem grava. “Digo isso por experiência própria. O som da festa influi muito.” Mas na grande maioria dos casos, a relação custo-benefício é satisfatória.

Como esse mercado está em plena ascensão, foi criada a Associação dos Gravadores, que exige um mínimo de dois anos de experiência e comprovação da qualidade das gravações. Gustavo Parente, de Salgueiro, Pernambuco, explica a importância da criação desse orgão. “O esquema foi criado a partir de uma discussão na comunidade ‘Rede Forrozão N.1′. Com o gigantesco aumento das pessoas que se dizem gravadoras, os ‘fulanos cds’ que trabalham com profissionalismo se sentiram prejudicados por essa máfia nascida no Orkut. Sem um pingo de noção de áudio, esses caras se humilham só para ganharem alguns alôs durante o show e se acharem ‘os estourados’.” De acordo com a Associação, se o gravador for cadastrado, a qualidade é garantida.
Com a chegada do Orkut e a consolidação das redes sociais no Brasil, a distribuição das gravações deu um salto enorme. Os gravadores têm suas próprias comunidades, onde são tratados como autênticas celebridades, com direito a fãs e admiradores. A maioria dos gravadores da nova geração começou a trabalhar com isso em busca de fama, para ouvirem seus nomes nos shows e conquistar o prestígio dos amigos, para depois se profissionalizarem.
Convém frisar que esse hábito ainda está circunscrito ao norte do país. Quando artistas do sul vão se apresentar lá, não costumam permitir as gravações, com o velha e batido argumento da quebra de direitos autorais. Além de não evitar a pirataria, essa atitude burra impede os fãs de desfrutarem de performances únicas, que costumam ser feitas em momentos de especial inspiração.
Além da vantagem óbvia de usar a pirataria como divulgação, as bandas saem ganhando também na questão do teste de repertório. Todo artista sabe que no primeiro disco a escolha das músicas costuma ser mais fácil, porque a banda vem de um intenso período de shows e já sabe de antemão as músicas preferidas do público. A chamada “síndrome do segundo disco”, que muitas bandas de rock enfrentam, deriva dessa deficiência do teste ao vivo.
Ao disponibilizarem seus shows em CDs que são vendidos logo após a apresentação, o teste do repertório ao vivo continua vai além do show. E ainda há o efeito multiplicador de que, além da pessoa que adquiriu a cópia, outras pessoas ouvirão as músicas e banda ganha um feedback perfeito. Tão perfeito que ao entrar no estúdio para gravar o próximo disco oficial, já sabe qual o setlist preferido pelos fãs.
No final todo mundo sai ganhando. Artista, vendedor de CD e público. É o tipo da coisa que dá certo quando se tem uma atitude pragmática e respeito mútuo entre produtor e consumidor, pois no final das contas, são pessoas lidando com pessoas. É como Victor, da dupla Victor & Leo, afirmou em entrevista recente: “Não enxergamos fãs, enxergamos pessoas e cada pessoa tem sua história de vida, suas vitórias, seus traumas, suas virtudes. Quando estamos diante de uma multidão, sabemos que cada pessoa ali pagou um ingresso para nos assistir, se deslocou de casa ou do trabalho e veio em busca de emoção. Não há uma multidão, mas milhares de ‘cada um’”.
PS do Timpin.: Deixo aqui meus efusivos agradecimentos a Flaviane Torres do blog do muido, cuja ajuda foi fundamental para a elaboração desse texto.
Comunidade do Gustavo CDs
Comunidade do Rodolfo CDsPodem baixar à vontade, que é tudo legal.
originalmente publicado no site Bis -
Stefhany: muito além dos virais e dos gaviões
Postado em 64 de Discórdia de 3175 YOLD , às 7:75:27 SilêncioGugu Liberato, Preta Gil e Cláudia Leitte formam a Demoníaca Trindade do oportunismo e da desonestidade com seu público. A mais nova vítima dessa quadrilha de gaviões reside em Inhume, interior do Piauí, e se chama Stefhany. Com apenas 17 anos e dona de uma voz poderosíssima, é sucesso no interior do Estado e reúne mais pessoas do que a população de sua cidade em seus shows.
No último Domingo Legal, do SBT, ela estava lá, pela terceira vez consecutiva. Cláudia Leitte e Preta Gil têm cantado o hit “Eu sou Stefhany” em seus shows. O motivo? Mamarem nas tetas do sucesso que o clipe fez na internet. Um dos mais bem sucedidos virais de 2009, o clip aconteceu na web pelo mais puro acaso. Um anônimo qualquer postou o vídeo no Youtube e, devido aos méritos inusitados do clipe, alastrou-se rapidamente e já chega a mais de trezentos mil acessos.
Por méritos inusitados entenda-se uma produção altamente tosca e uma citação, tanto na letra (versão em português de “A Thousand Miles”, de Vanessa Carlton) quanto no clipe do Volkswagen Cross Fox.
Nas poucas citações feitas pela imprensa on-line, Stefhany costuma ser enquadrada na categoria das celebridades instantâneas que conquistam fama passageira por causa das facilidades de produção e divulgação de conteúdo proporcionadas pelas câmeras digitais e os programas caseiros de edição.
Só que Stefhany não é um viral, Stefhany é muito mais. Ao contrário da dupla Valmir e Josy ou do rapper brasiliense Hungria Hip Hop, que fizeram seus clipes visando o sucesso nesse novo nicho de celebridades de clipes caseiros, Stefhany já tinha sua história e seu viral foi um daqueles azares que se transmutam em sorte.
Na primeira vez que se assiste a um vídeo dela é fácil tomar um susto com a discrepância entre o que se vê e o que se ouve. Seu corpo e jeito de menina e sua voz de mulher, como diria Reginaldo Rossi, surpreendem. Não é possível, alguém deve estar dublando. Mas não, além de ter mesmo aquela voz, a menina ainda compõe as músicas que canta.
Stefhany começou a cantar aos oito anos de idade, fazendo backing vocal para sua mãe Nety, que era cantora. Depois fez parte da “banda” Tonivan dos Teclados, que ao saberem dos planos da menina de seguir carreira solo, a dispensaram sem dó nem piedade. Ao notar a repercussão que a demissão teve, Nety decidiu empresariar a carreira da filha e começaram juntas a compor o repertório do futuro disco de estréia. Com o disco produzido de forma independente, partiram para a divulgação.
Como disse o presidente americano Barack Obama, “o mundo mudou”, então ao invés de darem com os burros n’água batendo nas portas das rádios, as duas largaram o disco nas mãos dos pirateiros, pois como a própria Stefhany diz, “cantor não ganha dinheiro com CD e DVD. Até gente rica prefere um pirata. Pra mim o importante é que as pessoas conheçam minhas músicas e que eu consiga fazer show por todo o Brasil.” Em três meses, o disco vendeu mais de treze mil cópias.
Mesmo com todo o sucesso que a cantora está fazendo pelo interior do Piauí, a estrutura dos shows, que já conta com 14 pessoas, continua familiar e inclui sua mãe (que é empresária, assessora, compositora e backing vocal), irmã (dançarina) e tio (montador de palco). O som segue a linha do forró romântico e integra o cânone inaugurado pela Banda Calypso. Sei que posso colocar minha cabeça a prêmio junto à nação fanática por Calypso, mas arrisco a dizer que o vocal da Stefhany é tecnicamente superior ao de Joelma.
Com dois CDs e um DVD lançados, a cantora tem um público em seus shows composto em sua maioria por crianças, logo, munida de sua juventude, beleza e talento, ela sobreviverá a Preta Gil, Cláudia Leite e Gugu Liberato, pois sua vaga no coração da próxima geração de jovens do sertão nordestino está garantida. Stefhany pode ficar tranquila e não precisa se preocupar com as pessoas que riem de seus clipes, pois quem ri por último, ri melhor. Stefhany está muito além dos virais e dos gaviões.
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Fantasmão toca Kuduro. Vai encarar?
Postado em 64 de Discórdia de 3175 YOLD , às 7:68:60 SilêncioA experiência e a perspectiva histórica nos ensinaram que da Bahia pode se esperar tudo. No entanto Fantasmão, a grande revelação do carnaval baiano deste ano pôs minha credulidade em cheque. Misturando poesia rápida, toques de hip-hop, uma guitarra pesada de hard rock ao já bem conhecido pagode, Fantasmão se tornou uma banda ímpar no cenário pop nacional.
O público consagrou Kuduro como o grande hit do carnaval de Salvador em 2009. Faixa de trabalho do último disco de estúdio da da banda, o vídeo do Kuduro no Youtube já tem mais de um milhão de views. Mas que diabos é kuduro afinal de contas?
Kuduro surgiu inicialmente como uma dança em Angola quando Tony Amado começou a discotecar no início dos anos 90, influenciado pelos DJs de Ragga que conheceu nos Estados Unidos. Gradualmente, foi vazando do continente africano e fatalmente chegou ao recôncavo baiano, através do DJ Dog Murras, e influenciou bandas como Psirico e o nosso Fantasmão.

Criado em julho de 2006 por Eddye, ex vocalista da banda Parangolé, o grupo logo começou a se destacar com sua inusitada proposta musical aliada a letras com uma forte crítica social. O ritmo foi batizado por seus criadores como Groove Arrastado e é melhor descrito pelo próprio Eddye: “O groove arrastado é um ritmo que resulta das sonoridades do samba, reggae, rock e hip-hop. É um movimento novo na Bahia, mas graças a Deus temos conseguido difundi-lo e já vemos outras bandas cantando nossas músicas! Isso é muito bom. Quanto à diferença em relação ao pagode tradicional, o Fantasmão não usa cavaquinho, que é um instrumento típico do pagode. Ao mesmo tempo que não usamos cavaquinho, a gente tem como componente fixo da banda um DJ que nos acompanha em todos os shows e dá uma batida mais eletrônica nas músicas!”
O fator diferencial e o mérito do Fantasmão não se restringe apenas à música. Ao contrário da maioria das letras das músicas de swingueira, que é como eles chamam o pagode por lá, as letras de Eddye não falam de “rachada na calçada” e assemelhados, mas do dia-a-dia e dos problemas de quem vive no gueto. As dançarinas, ao invés de roupas minúsculas, usam vestidos brancos, longos e folgados, cobrindo até o tornozelo.
Com toda essa quebra de paradigma, o show teria tudo pra ser chato, mas não. Trata-se de uma festa anárquica e extremamente extasiante. Quem quiser ver o Fantasmão com seus próprios olhos (como todo cético quando o assunto é fantasma) pode ir atrás do DVD “Confraria do Fantasmão”, lançado em 2008 e disponível no site da banda.
Fantasmão é, inclusive, um autêntico fenômeno na internet brasileira. Muito mais do que aquela falcatrua chamada Mallu Magalhães. Enquanto a peguete de Marcelo Camelo foi impulsionada pelo hype indie rock, Fantasmão foi concebido pela emergente multidão de internautas lan houseiros. A comunidade da banda conta com mais de quarenta mil membros e não é a única, existem mais de 800. E eles nem Myspace tem. É mole ou quer mais?
A banda não é um caso de sucesso pontual, mas faz parte de uma cena mais ampla que renova, mais uma vez, a tradição do samba de roda, a exemplo do que já fez É O Tchan, Terra Samba e outros. Dentre os destaques dessa nova cena temos PretuBom, Psirico e Parangolé. Muito já se disse que a Africa vingou a escravidão através da música. Com a influência dos ritmos de Luanda e Angola no – segundo Caetano Veloso – transpagode soteropolitano, verifica-se que essa vingança é perene e constante.
Recentemente o vocalista do Fantasmão causou um susto (ops!) ao parar de fazer shows devido a fortes dores nas costas. Após semanas de apreensão, os fãs tiveram um alívio ao saber que no laudo médico constava apenas uma hérnia de disco, tratável através de fisioterapia e de uma cinta para corrigir a postura. Desta forma, a banda pôde retornar à ativa na última sexta-feira com um show na micareta de Feira de Santana.
Esse mês eles finalizam o clip da música Kuduro, gravado em diversos pontos de Salvador e com a participação da modelo Viviane Araújo. O terceiro disco em estúdio também está no prelo com o título provisório de Rap Groovado, sugestão dos fãs internautas. Meu oráculo disse que se esses caras caírem na mão de um Rick Bonadio da vida, é bem capaz de bombarem nacionalmente. Se bem que, como o próprio Eddye canta, o bicho vai pegar, não precisa empurrão.
PS.: Deixo aqui meus agradecimentos ao pessoal do www.sambando.com por terem me apresentado a banda e pro www.pagodeaki.com, por ter entrevistado o Eddy duas vezes.
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Mas Bah Tchê! Isso não é coisa de gaúcho!
Postado em 64 de Discórdia de 3175 YOLD , às 7:58:67 SilêncioA notícia é antiga, no entanto pouco se comenta fora do Rio Grande do Sul. Desde 2006, os grupos da chamada Tchê Music não podem mais usar a pilcha (bota, bombacha, guaiaca) por serem considerados traidores da tradição gaúcha. Seu crime? Modernizar a música gaúcha com a inclusão de novos instrumentos e novas referências sonoras. Que os CTGs cultivem a tradição e evitem que essas bandas toquem em suas dependências é compreensível, mas estender a proibição ao vestuário beira o absurdo.
Não que esses grupos façam ou fizessem questão da pilcha. Uma das críticas que os tradicionalistas mais faziam a eles era inclusive seu “desleixo” quanto a forma como se vestiam em suas apresentações. Boinas, bombachas apertadas, bandanas e até calças jeans e chapéu de cowboy foi demais para aqueles gaúchos de bombacha e cuia de chimarrão na mão.
A Tchê Music começou a ser lapidada nos primórdios dos anos 90 com o grupo Tchê Barbaridade, logo seguido por Tchê Garotos, Tchê Guri, Garotos de Ouro e outros. Eles colocaram percussão, guitarra elétrica e até mesmo DJ em seu instrumental. Na parte da mescla de ritmos, incorporaram forró, axé, sertanejo e rock. O resultado foi um som novo, vigoroso e empolgante e o consequente retorno do público jovem aos bailões.

Os Garotos de Ouro em ação, sem pilcha nem bombachaNo novo disco ao vivo dos Tchê Garotos, para nos atermos a um exemplo ilustrativo, na música “Eu Vou Te Amar” um desavisado poderia pensar que Batista Lima, vocalista da banda Limão com Mel, se mudou de mala e cuia de Salgueiro, sertão de Pernambuco, para Bagé, no coração dos pampas.
No entanto, tamanho sacrilégio não pode ser tolerado por muito tempo pelos arautos da tradição campeira. Em 2006 o MTG (Movimento Tradicionalista Gaúcho) se reuniu no Paraná (não tinham um lugar no Rio Grande do Sul para fazerem isso?) e decidiu endurecer as restrições aos grupos de Tchê Music. Como retaliação aos hereges, ficou decidido que eles a partir de então estariam expressamente proibidos de tocarem nos CTGs. Assim, da noite pro dia, mais de 3.000 pontos passíveis de se fazer show sumiram do mapa. Os Centros que desrespeitassem a resolução seriam notificados e até mesmo expulsos do MTG.
Tudo com as mais nobres e estúpidas boas intenções: a manutenção da ordem, da moral e dos bons costumes gaudérios.
Acontece que a música, como qualquer outra manifestação cultural, é algo vivo e, como todo ser vivo, cresce, se expande e dialoga com outros seres viventes; não pode ser engessada, estagnada em uma forma
específica e rígida. A música gaúcha, sob o controle dogmático da ala tradicionalista, se encontrava em tal estado de mais do mesmo que a molecada simplesmente não se interessava mais por ela. Se tem alguém que estava
assassinando a cultura gaúcha com excessivas doses de obsolência era justamente esses tradicionalistas, e não o pessoal da Tchê Music.Interessante notar que esse pessoal defensor da tradição parece ignorar que o vanerão, por exemplo, surgiu de uma mistura de diversos ritmos com a habanera, que floresceu em Havana, Cuba, há mais de 200 anos e foi a primeira música genuinamente afro-latino-americana. Se essas pessoas já apitassem naquela época, é bem provável que não tivéssemos hoje nem o vanerão, nem o Texeirinha.
Aliás, será que esse povo se lembra que o Texeirinha gravava samba canção?
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